segunda-feira, 28 de julho de 2008

O maconheiro do Fantástico

Texto de Marcelo Rubens Paiva

Se o consumo de maconha gera tráfico, que gera contrabando de armas, que alimenta organizações criminosas e um aparelho de Estado corrupto, discutir a sua descriminalizaçã o ou proibição interessa também aos não consumidores, que sofrem com a rotina da violência social.

No entanto, fugimos do debate. Nenhum personagem representa tanto a omissão como Tom, o adolescente maconheiro estrela de um reality show exibido em partes pelo Fantástico.

Ele agride o irmão, xinga a mãe, olha perturbado para o nada, come como um condenado em horas impróprias, a chamada ''larica'', segundo o apresentador, e ri como um demente para as câmeras. Só sossega quando vai à praça freqüentada por outros ''drogaditos' ' e fuma com gosto um baseado do tamanho de uma caneta.

Tratado como um caso grave, o inglesinho Tom repercutepor estas terras, levanta questões como o que fazer em casos parecidos. Internação em clínica especializada (há mais de 150 credenciadas peloMistério da Saúde) foi a saída escolhida pela interatividade.

WalterBenjamin quem afirmou que uma das características da modernidade é afastar os problemas dos lares, já que os familiares produtivos não podem ficar à mercê dos cuidados que exigem os inadaptados: loucos, depressivos, alcoólatras, viciados.

Tom tem problemas, merece cuidados, e o que fazemos com ele? Transformamo- no em estrela do show da vida, acompanhamos com câmeras as suas maluquices, o desespero da mãe, e abrimos espaço para especialistas revelarem os seus pontos de vista, enquanto a produção fica de olho no Ibope minuto a minuto.

Ele aponta a hipocrisia desse gênero de show: queremos realmente curar alguém ou faturar em cima do drama alheio? Quanto a família recebeu da BBC, produtora do programa, para protagonizar o show? Tom recebeu algum? Como se chama a exploração e exposição das fraquezas humanas, visando ao lucro e à obtenção de vantagens pessoais?

Não se perguntou se o adolescente ficou daquele jeito porque fumava maconha, ou fumava maconha por ser daquele jeito.

Conhecemos maconheiros. Não é mais tabu falarmos desse tema com franqueza. A maioria dos que nasceram depois dos anos 60 experimentou. Temos amigos que fumam maconha. Temos parentes. Até a minha mãe já fumou numa festa.

No meio estudantil, muitos são usuários. No meio artístico, nem se fala. Certamente os apresentadores de tevê, diretores, produtores, câmeras e técnicos têm amigos maconheiros, já viram usuários e sabem que ninguém fica daquele jeito. Para que estigmatizar algo que é tão delicado ao Brasil, onde o crime organizado e narcotráfico obtêm lucros significativos ante a nossa incapacidade de lidar com o problema?

Não serei eu o mártir dessa causa. Muitos que abriram o jogo e buscaram um diálogo franco - como Soninha Francini, que foi demitida da TV Cultura, depois de afirmar que experimentou maconha -, pagaram um preço exagerado pela ''ousadia''. Lembra a frase de Keith Richards, guitarrista dos Stones: ''Nunca tive problemas com drogas. Só com a polícia''?

Sairíamos ganhando se déssemos voz para o usuário defender o seu costume ritualista.

O Brasil quer se inscrever no time de grandes países. Sua economia é de peso. Culturalmente, é um País que inspira, cria uma legião de admiradores, propõe idéias novas no campo da moda, alegria, afetividade, relações humanas e estilo de vida. Na música, literatura, cinema e, claro, esporte, temos a nossa história, fãs, inovamos, recriamos.

No entanto, quando o assunto é direitos individuais - união civil homossexual, aborto, descriminalizaçã o da maconha -, estamos presos a tabus e idéias conservadoras, que não combinam com a fama de sermos o futuro. E aqueles que propõem discutir tais temas são reprimidos sob penas de leis anacrônicas e confusas.

Como a Lei 11.343, de 2006, que institui o Sisnad, Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas, que prescreve medidas para prevenção do uso indevido e estabelece normas para repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito, mas que contraditoriamente estabelece como princípio ''o respeito aos direitos fundamentais da pessoa humana, especialmente quanto à sua autonomia e à sua liberdade, o respeito à diversidade e às especificidades populacionais existentes, a promoção dos valores éticos, culturais e de cidadania do povo brasileiro'' , entre outros. Quem garante que a maconha não é parte da cultura e de rituais de um grupo, que quer garantir a sua liberdade e diversidade?

Você se lembra, na história recente, de alguma manifestação popular que tenha sido proibida no Brasil democrático? A Marcha da Maconha foi.

O Coletivo Marcha da Maconha Brasil é um grupo de indivíduos e instituições que trabalha de forma majoritariamente descentralizada, com um núcleo central que mantém um site de discussões na rede. O objetivo principal do Coletivo é criar espaços onde os interessados em debater a questão possam se articular e dialogar, estimular reformas nas políticas públicas sobre a maconha e seus diversos usos, ajudar a criar contextos sociais, políticos e culturais onde todos os cidadãos brasileiros possam se manifestar de forma livre e democrática a respeito das leis sobre drogas, exigir formas de elaboração e aplicação dessas políticas e leis - que sejam mais transparente, justas, eficazes e pragmáticas, respeitando a cidadania e os Direitos Humanos.

Muitos especialistas afirmam que o Brasil, diferentemente de outros países, não está preparado para uma lei mais liberal. Diante do impasse, a bandidagem sorri.

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1 comentários:

Vandson disse...

Marcelo Rubens Paiva é foda. Fodaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! Amo esse cara.